História da Capoeira no Rio de Janeiro
História da Capoeira no Rio de Janeiro
História da Capoeira no Rio de Janeiro

“A capoeira carioca está historicamente imbricada às maltas de capoeiras da cidade e à “filosofia da malandragem carioca” dos anos 1800. A baiana, por sua vez, está ligada à cultura negra baiana e especificamente ao candomblé. No Recife, ela se manifesta nas gangues de rua Brabos e Valentões.” (Gil Velho- Grupo Senzala).
Fazendo uma análise mais apurada ao passado da capoeiragem carioca , pode-se afirnar que a Capoeira está imbricada aos embarcadouros do final do século XVIII, especificamente os que se encontravam na Praia da Piaçaba, vindo a capoeira espalhar-se pela cidade do Rio de Janeiro a partir da chegada de D.João VI e a família real em 1808, tornando-se um fenômeno social pernicioso, pois trazia em sua memória as violências sofridas na escravidão ainda vigente, na medida em que os praticantes, constituíam-se de escravos de ganho e escravos libertos, ora vendedores, ora marinheiros ou da estiva.
Por motivos políticos e, por que não inserir neste contexto, o termo parcialidade, os historiadores vinculados ao "Povo do Dendê", como assim refere-se à Bahia o eminente escritor jornalista prof. Lacé, omitem a capoeira carioca como marco de fundamental importância nas transformações que elevaram esta atividade, antes marginal, ao status de Cultura Afro-Brasileira, sendo hoje por reconhecimento, um Patrimônio Imaterial do Brasil, acumulado a sua condição antes adquirida de desporto nacional.
Documentos de instituições prisionais da época, comprovam que na segunda metade do século XVIII (1789), a capoeiragem esteve íntimamente ligada aos meios urbanos do Rio de Janeiro, e daí adquirido mais e mais elementos transformadores, em razão de ter sido perseguida; criminalizada; descriminalizada; discriminada, desportizada na Bahia (1930), Rio de Janeiro (1933) e São Paulo (1936), como "Luta Brasileira..."; folclorizada na Bahia e, finalmente, reconhecida pelo IPHAN, embora de conotação desportiva desde 1928, como veremos adiante, através do magnífico trababalho científico do Prof. Dr. Sérgio Luiz de Souza Vieira - PUC/SP 2004, sob o tema "Da Capoeira: Patrimônio Cultural", que reputo ter corroborado decisivamente, com o conteúdo das obras do não menos importante Prof. Ms. Lacé, combatido, vilipendiado e, muitas vezes desrespeitado, por defender a tese de que o Rio de Janeiro é o berço da Capoeira Brasileira que, nem por isso, desmerece o grandioso trabalho difusório de Mestre Bimba em sua trajetória cultural.
ANIBAL BURLAMAQUI (Zuma)
PATRONO DA CAPOEIRA DESPORTIV
Fonte de Pesquisas
Prof. Dr. Sérgio Luiz de Souza Vieira – PUC/SP/2004
DDOS BIOGRÁFICOS
Segundo depoimento de um dos baluartes da Capoeira, o Almirante e Professor de Educação Física Dr. Lamartine Pereira da Costa, o nosso patrono era um funcionário público estadual do Estado da Guanabara, atual Rio de Janeiro. Residia no Bairro de Copacabana e na década de 30 foi procurado pelos baianos. Em meados de 1961 e 1962, o mesmo contava com cerca de 60 anos,ocasião em que procurou o Dr. Lamartine. Outrossim, que fora inspirado pela Capoeira da Lapa e pelo livreto “Gymnastica Brazileira”, editado em 1904.
A Capoeira Desportiva é o mais antigo segmento organizado da Capoeira. Surgiu no Rio de Janeiro após a Proclamação da República, no Brasil, em 1889. É resultante do reaproveitamento da corporalidade da antiga capoeiragem, em seus gestos e movimentos, para a construção de um método ginástico caracterizado por uma forma de luta sistematizada.
Em 1904 surgiu um livreto anônimo, sob o nome: Guia do Capoeira ou Gymnastica Brazileira, com algumas propostas deste reaproveitamento, no qual se encontram as letras ODC, que significam “ofereço, dedico e consagro”, no caso “à distinta mocidade”.
Foi somente em 1928 que a Capoeira Desportiva foi metodizada e estruturada por seu precursor, Annibal Burlamaqui, conhecido pelo nome de Zuma, o qual elaborou a primeira Codificação Desportiva da Capoeira, sob o título de: Gymnastica Nacional (Capoeiragem) Methodizada e Regrada. Sua obra impressiona até hoje os Profissionais de Educação Física, justamente pelo vanguardismo que encerra. A mesma foi dividida em cinco partes: I- História; Iiconsiderações sobre os Sports; III- Methodos e Regras; IV- Os Golpes e os Contra-Golpes; V- Exercícios e Requisitos para a Aprendizagem da Gymnastica Nacional.
Este trabalho, que englobou dois conceitos distintos para a Capoeira, o da “Luta” e o da “Ginástica”, foi prefaciado em 1927 pelo advogado Mário Santos. Apresentava como inovação, a área de competição, estabelecida em um círculo Fonte: Da Capoeira: Como Patrimônio Cultural - Prof. Dr. Sergio Luiz de Souza Vieira - PUC/SP 2004 de 2,0 m de raio, critérios de arbitragem, de empate e de desempate, uniforme pugilístico, uma relação de 28 golpes, sendo três deles de autoria do próprio autor, uma posição base, a guarda, e o que é mais importante, um processo pedagógico de todos os movimentos, descritos e ilustrados, contendo as estratégias de contragolpes e uma relação de exercícios de aquecimento e de treinamento para uma rápida adaptação da população leiga aos padrões de movimentos da capoeiragem. Trata-se de um manual técnico-desportivo que até hoje é considerado uma obra extraordinária.
Burlamaqui, considerando que a Capoeira, enquanto Ginástica e Luta, era também um esporte categorizado como pugilístico, adotou os padrões do Boxe, adaptando-os à mesma. Esta situação encontra ressonância em Elias, ao nos afirmar que “estas características do boxe enquanto desporto, permite explicar o motivo por que a forma inglesa de boxe foi adaptada como padrão em muitos outros países, substituindo, muitas vezes, formas de pugilato tradicionais, específicas de uma região, como sucedeu em França... A transição dos passatempos a desportos, a << desportivização>>, se é que posso utilizar esta expressão como abreviatura de transformação dos passatempos em desportos, ocorrida na sociedade inglesa, e a exportação de alguns em escala quase global, é outro exemplo de um avanço de civilização” (Elias & Dunning, 1995: 34).
Embora transposta do boxe , esta obra de Burlamaqui foi extraordinária para os padrões da época causando ainda hoje muita admiração pela riqueza de detalhes técnicos apresentados, assim como, por seus processos pedagógicos devidamente ilustrados.
Como um desporto pugilístico, a Capoeira trilhou um novo caminho no qual fora aceita socialmente, e a contribuição de Annibal Burlamaqui para a organização desportiva da Capoeira nesta área foi tamanha, que ele conseguiu introduzir a mesma, enquanto “Luta Brasileira”, já em suas fundações, na Federação Baiana de Pugilismo, em 11 de novembro de 1930, na Federação Carioca de Pugilismo, em 05 de março de 1933, bem como na Federação Paulista de Pugilismo, em 4 de novembro de 1936, de modo que em ambas foram criados, já no primeiro Aqui temos, mais um exemplo da situação multicultural da Capoeira, na medida em valores da Inglaterra, e de um de seus esportes nacionais, o Boxe, são inseridos e adaptados à Capoeira. Isto agrega-se às suas origens: africana, indígena, portuguesa e chinesa. A partir desta situação, entre outras, devemos repensar a Capoeira como um patrimônio cultural brasileiro, nos apontando para a um patrimônio imaterial da humanidade.
Naquele momento, os “Departamentos Estaduais de Luta Brasileira”, situação esta que teria desdobramentos futuros. A necessidade do estabelecimento de uma legislação desportiva era uma exigência que vinha do exterior, em especial do Comitê Olímpico Internacional. Deste modo, surgiu em 14 de abril de 1941, através do Presidente Getúlio Vargas, o Decreto 3.199/41 que regulamentava as práticas desportivas e dava outras considerações. Esta legislação organizou as Confederações Brasileiras segundo suas áreas específicas. A Capoeira, entendida como luta, passou a integrar, também, desde sua fundação, a Confederação Brasileira de Pugilismo – CBP, através do Departamento Nacional de Luta Brasileira. Este foi o primeiro reconhecimento oficial da Capoeira como uma prática desportiva. Ou seja, Getúlio Vargas liberou a Capoeira para que a mesma se transformasse em um desporto pugilístico, graças e tão somente aos trabalhos que Annibal Burlamaqui desenvolveu na Bahia, no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e em São Paulo.
Muito embora desde o final do século XIX, a Capoeira Desportiva já estivesse liberada pela polícia, as contribuições precursoras de Annibal Burlamaqui, organizaram este segmento, sendo considerado por tais razões o seu patrono. Além disto, lançaram as bases da moderna Capoeira, a partir de Zuma, pois de sua atuação, também surgiram outros dois Eixos, ambos institucionalizados enquanto práticas esportivas na Cidade de Salvador, Bahia, conforme veremos adiante.
O Eixo Desportivo, buscado pelos Positivistas de Vanguarda e que foi codificado por Burlamaqui, tornou-se institucionalizado, obtendo, a cada época, avanços em suas propostas. A Capoeira passa a sofrer grandes modificações principalmente a partir dos anos 30 e 40, e os capoeiristas que tanto terror causavam na população e tanto trabalho davam à polícia “vão sendo substituídos em importância na cena principal da Capoeira por mestres que com zelo vão exercer uma nova ação civilizadora”.
As fontes utilizadas aqui foram os próprios estatutos das referidas entidades. A Federação Baiana de Pugilismo, embora fundada em 1930, foi oficializada em outubro de 1935.
Este Decreto fundou as Confederações Brasileiras de: Desportos, Basquetebol, Pugilismo, Vela e Motor, Esgrima e Xadrez . Observe-se que o Futebol ainda não havia adquirido o status que hoje goza, sendo assim, integrado à Confederação Brasileira de Desportos. Dados da Confederação Brasileira de Capoeira.
Abreu, Frederico. O ABC da Capoeira Angola: Os Manuscritos do Mestre Noronha. Brasília, CIDOCA, 1993, pg. 120.
Fonte: Da Capoeira: Como Patrimônio Cultural - Prof. Dr. Sergio Luiz de Souza Vieira - PUC/SP 2004
Através deste processo civilizador a ”Luta Brasileira” passou a estar atrelada aos dispositivos legislativos que, como vimos, foram vitais para esta legitimação, os trabalhos desenvolvidos por Burlamaqui. Sua importância para este processo não pararia por ai, pois ainda exerceu grande influência num dos mais profícuos professores de Educação Física do Brasil, o Prof. Inezil Penna Marinho, que em 1945 publica a obra “Subsídios para o Estudo da Metodologia do Treinamento da Capoeiragem”, elaborada a partir de um trabalho científico que no ano anterior fora premiada em 1° lugar no Concurso Nacional de Monografias do Ministério da Educação e Saúde. Em sua página dedicatória encontramos o seguinte: “Dedicamos este pequeno rabalho aos capoeiras do Brasil, entre os quais Agenor Sampaio (o velho Sinhozinho) e Annibal Burlamaqui (Zuma), que tanto têm trabalhado para que a capoeiragem não desapareça”.
Graças ao trabalho desenvolvido por Annibal Burlamaqui, estruturando os Departamentos de Luta Brasileira (Capoeiragem), nas Federações Estaduais de Pugilismo, em 1953, o governo brasileiro expediu a Deliberação 071/53 do Conselho Nacional de Desportos – CND, órgão do Ministério da Educação e Saúde Pública. Esta medida que tinha como objetivo exercer um controle sobre o cidadão que praticava atividades esportivas, em especial as Artes Marciais,
enquadrando a Capoeira nesta categoria, determinava o cadastramento de todos os seus praticantes e sua comunicação aos órgãos governamentais. Esta medida, a despeito da sua natureza, caracterizou o segundo reconhecimento oficial da Capoeira como uma modalidade desportiva.
Encontramos, também a partir de Annibal Burlamaqui, a estruturação do segundo segmento organizacional da Capoeira, o da Luta Regional Baiana, devido à grande influência que o mesmo exerceu sobre a pessoa de Manoel dos Reis Machado, o Mestre Bimba, e seus primeiros discípulos, que buscando uma aceitação social para seu trabalho, encontra no Método Desportivo de Zuma um diferencial de ensino garantidor desta projeção almejada.
O Método de Zuma, como vimos, tinha o nome de “Ginástica Nacional” e deu origem à “Luta Brasileira”. Embora sejam diferentes os conceitos de “Ginástica” e de “Luta”, ocorre que ambas provinham da mesma orientação: civilizar e difundir a Capoeira. Bimba, utilizando-se deste método e fazendo uso da legislação de sua época, registrou sua academia na Inspetoria do Ensino Colegial Secundário e Profissional da Secretaria da Educação, Saúde e Assistência Pública, do Estado da Bahia, obtendo em 09 de julho de 1937, o Alvará n° 1117, para o funcionamento de sua academia como Curso de Educação Física, sob o nome de “Centro de Cultura Física e Luta Regional”. Ou seja, a Capoeira, que na década anterior já estava liberada pela polícia no Rio de Janeiro, sob o nome de “Luta Brasileira”, agora estava registrada em Salvador sob o nome de “Luta Regional”.
Marinho, Inezil Penna. Subsídios para o Estudo da Metodologia do Treinamento da Capoeiragem – Imprensa Nacional, Rio de Janeiro, 1945, pg. 5.
Fonte: Da Capoeira: Como Patrimônio Cultural - Prof. Dr. Sergio Luiz de Souza Vieira - PUC/SP 2004
Desta forma um modelo desportivo nacional fora registrado por Bimba como sendo regional. Iniciou-se, a partir de então grandes desentendimentos sobre a mesma. Esta situação de registro na capital nacional como “nacional” e nas demais capitais como “regional” era comum naquele período histórico. Este fato foi registrado no Jornal Diário da Bahia, na sua edição de 13 de março de 1936, na matéria: “Titulo Máximo da Capoeiragem Bahia na”, onde Bimba, dá uma longa entrevista acerca de seus desafios públicos na divulgação da chamada Luta Regional. Da mesma destacamos o seguinte trecho: “Falando sobre o actual movimento d’aquele ramo de lucta, genuinamente nacional uma vez que difere bastante da Capoeira d’angola, o conhecido Campeão (Bimba) referindo-se a uma nota divulgada por um confrade matutino em que apparecia a figura do Sr. Samuel de Souza. Do Bimba, de referência aos tópicos ouvimos: Ao som do berimbau não podem medir forças dois capoeiras que tentem a posse de uma faixa de campeão, e isto se poderá constatar em Centros mais adiantados, onde
a Capoeira assume aspectos de sensação e cartaz. A Polícia regulamentará estas exibições de capoeiras de acordo com a obra de Aníbal Burlamaqui (Zuma) editada em 1928 no Rio de Janeiro... Antes de deixar a nossa redação Bimba, apresentou-nos um seu discípulo Manoel Rozendo Sant’ana, que aproveitou para lançar de público um desafio ao Sr. Samuel de Souza para uma lucta pelas normas traçadas pela direção do Parque Odeon, conforme se tem verificado ”.
Nesta reportagem existem alguns itens que merecem uma atenção mais detalhada:
- A confirmação da influencia de Zuma no trabalho implantado por Mestre Bimba;
- O reconhecimento de Bimba ao trabalho de Zuma;
- A afirmação de Bimba existia Centros mais adiantados em Capoeira que a Bahia, no caso, a Cidade de Rio de Janeiro;
- O interesse de Bimba pela prática desportiva da “Luta Nacional”;
- A integração de seu discípulo nesta inovação;
- A adoção do regulamento de Zuma pela direção do Parque Odeon, onde se realizavam tais apresentações.
Fonte: Rego, op. cit., 1968. pág. 282 e 283.
Diário da Bahia. Salvador 13 de março de 1936.
Fonte: Da Capoeira: Como Patrimônio Cultural - Prof. Dr. Sergio Luiz de Souza Vieira - PUC/SP 2004
A liberação pela polícia, daquela forma de luta já existente no Rio de Janeiro.Esta competição de Capoeira teve na época uma significação importante. Durante algumas décadas estes fatos foram de desconhecimento dos capoeiristas, posto que os biógrafos de Bimba omitiam esta situação, procurando manter uma imagem de que o mesmo fora o grande organizador da Capoeira. Hoje esta realidade acabou vindo à tona, gerando novas pesquisas sobre este assunto de grandiosa importância. Tratava-se da primeira competição desportiva ocorrida em
Salvador, e demonstrava uma nova linha de conduta entre os capoeiristas a partir do seu reaproveitamento desportivo conforme se constata a partir do próprio depoimento de um de seus alunos e biógrafo: “Essas lutas foram realizadas no dia da inauguração do Parque Odeon, na Praça da Sé. No dia 7 de fevereiro de 1936 o Diário de Notícias publicava: ‘O Esporte Nacional no Stadium Odeon, o capoeirista Bimba venceu brilhantemente o seu adversário Henrique Bahia”10. Bimba venceu todos os lutadores e estava convencido de que ganharia um cinturão de campeão, o que não se efetivou. Esta frustração acompanharia sua vida.
Embora na matéria não esteja citado o nome do discípulo, tende-se a acreditar que tenha sido seu primeiro discípulo Cisnando, o qual mantinha ligações com Anníbal Burlamaqui, fazendo a ligação entre ambos. Segundo pesquisas de Edison Nascimento, Cisnando viera estudar na Bahia, procedente do Ceará, onde seu pai, fazendeiro, tinha empregados coreanos, sendo que o próprio Cisnando era casado com uma coreana. Embora a este fato, ainda tenhamos que realizar pesquisas mais intensas, existe uma coincidência muito grande neste fato, pois, Mestre Bimba implantou um sistema de graduação de seus discípulos com as cores azul, vermelho, amarelo e branco, a qual era fornecida a partir de um lenço de seda que era dado ao discípulo, a cada nível que conquistava. Esta mesma semelhança se encontrava em uma luta coreana denominada Taekyon, a qual mantém também a mesma corporalidade da Capoeira, pois em seu gestual também aparece a ginga, porém em forma invertida, conforme era trabalhada por Annibal Burlamaqui. Apresentam-se, assim, novos indícios da multiculturalidade da Capoeira.
Almeida, Raimundo César Alves. Bimba – Perfil do Mestre. Salvador, UFBA, 1982, pg. 16.
Note-se que o jornal publicava em seu editorial o termo “O Esporte Nacional”. Estranhamente na mesma página existe uma alusão ao Jornal Diário da Bahia, de 13 de março de 1936, no entanto, o nome de Annibal Burlamaqui é suprimido na citação das lutas no Parque Odeon, pelo autor, que também era discípulo de Bimba. A este fato, temos a esclarecer que embora a Federação Baiana de Pugilismo tivesse sido fundada em 11/11/1930, sua oficialização ocorreu somente no final de 1935, mais precisamente em 12 de dezembro. A realização destes eventos teve por finalidade a implantação do método de Zuma na Cidade de Salvador, uma vez que também na Bahia havia, anteriormente, repressão policial em sua forma espontânea.
Fonte: Da Capoeira: Como Patrimônio Cultural - Prof. Dr. Sergio Luiz de Souza Vieira - PUC/SP 2004
Ao realizar esta ação, Bimba acrescentou à Capoeira o acompanhamento musical em algumas solenidades, mantendo, porém, uma linha de trabalho caracterizada pela desafricanização de seus rituais11. Note-se que a música se encontrava somente em algumas solenidades e não no treinamento, posto que Bimba considerava isto um fator de degeneração da luta. O acompanhamento musical que também não se configura na obra de Burlamaqui precisa ser entendido como outra etapa no processo civilizador, pois o que estava em jogo naquele momento era o total esvaziamento da cultura africana, sendo aproveitado somente o gestual da Capoeira, ou seja, apenas o que era pertinente à aptidão física e aos exercícios de agilidade corporal.
Em função desta intervenção de Bimba na “Ginástica Nacional” ou na “Luta Brasileira”, passou a existir uma ruptura estrutural na Capoeira, gerando também uma das maiores confusões ocorridas na mesma no século XX e que ainda hoje trás fortes conseqüências.
Cabe enfatizar que desde o início do século, a Capoeira também estava ludificada em Salvador, sob o nome de “Vadiagem” ou mesmo de “Capoeiragem”, entretanto, após Bimba implantar o novo método, afirmando-o como uma Luta Regional”, esta ação gerou fortes divergências sobre a mesma nos anos que se seguiriam.
Assim, tivemos a seguinte situação: o nome “Luta Regional”, que surgiu atrelado a capoeiragem a partir da “Luta Brasileira”, começou a sofrer uma derivação popular para “Capoeira Regional”, nome que não foi registrado, mas pelo qual se consagraria.
Este nome acabou também gerando o entendimento de que a Capoeira por ser “regional” era da região. Por outro lado muitos também tinham o entendimento de que aquela introdução derivava da “Ginástica Brasileira”, que vinha ficar evidente que a preeminência da Capoeira no Rio de Janeiro se deveu a Burlamaqui. Não é à toa que este sentimento estivesse na Bahia. Bimba, por sua vez, incentivado por Cisnando, procurou tirar vantagem daquela situação, afinal, o Rio de Janeiro era a Capital Nacional. Assim a desafricanização, ou seja, a institucionalização da Capoeira, de luta para jogo e esporte, a tornava palatável à sociedade e com isto a mesma conseguiu obter seu desenvolvimento até os nossos dias.
Mestre Bimba se utilizou somente do berimbau e do pandeiro para a formação da orquestra, a qual denominava de charanga, retirando assim os instrumentos que traziam conotações religiosas africanas, ente eles o atabaque e o agogô. Esta foi uma estratégia utilizada por Bimba para conseguir a penetração de seu método no mundo da elite branca de Salvador, ou seja, despertencida da religiosidade africana, a mesma conseguiria um grau de aceitação mais favorável ao mundo dos brancos. Sendo assim, Bimba conduz institucionalmente o processo de embranquecimento da Capoeira, sendo raríssimos seus alunos afrodescendentes, os quais somente existiram em função de uma situação socioeconômica privilegiada. Este é um aspecto importante a ser considerado no processo civilizador da Capoeira, porto que, para que a mesma fosse aceita socialmente naquela época, ou seja, civilizada, teve que ser desafricanizada e esvaziada de seus conteúdos africanos. Esta atitude de Bimba deu-lhe notoriedade a ponto de ter, como vimos, alcançado a projeção na mídia, o que até então não havia ocorrido com nenhum outro capoeirista negro.
Fonte: Da Capoeira: Como Patrimônio Cultural - Prof. Dr. Sergio Luiz de Souza Vieira - PUC/SP 2004 do Rio de Janeiro, e por sua vez, uma indesejada influência carioca12, se opondoradicalmente a estas duas situações, havendo quem considerasse a Capoeira de Bimba uma Capoeira carioca, a exemplo de Mestre Samuel de Souza, o famoso Samuel Querido de Deus.
A Regional exploraria mais o aspecto da luta propriamente dita, e sob o prisma de seu aspecto lúdico caracterizou-se por uma maior ênfase em seu fator “competição”, gerando outras relações quanto à vertigem, à fantasia e à aventura.
Esta característica da Regional contribuiu para torná-la conhecida por sua belicosidade, sendo este um efeito que, em teoria de jogo, é chamado de corrupção do lúdico, a ser estudado oportunamente. Tal fato gerou um crescimento da busca de sua prática desportiva, principalmente nos grandes centros do país, fato este que se alinharia com a busca e o crescimento de outras Artes Marciais, tais como o Judô, o Karatê, o Kung Fú, o Jiu-Jítsu, o Tae Kwondo entre outras. A Regional neste cenário contribuiria para enfatizar a Capoeira como a Arte Marcial Brasileira.
Com o apoio governamental, Bimba passou a excursionar com seus alunos para os grandes centros, demonstrando “sua” luta regional, o que serviu para divulgar a Capoeira como um todo, em grande parte do território nacional.
Sobre este fato, destacamos o depoimento pessoal de Mestre Aristides Pupo Mercês, ao ler pela primeira vez a matéria do Jornal diário da Bahia, aqui mencionado, que exclamou: somente agora consigo entender as palavras de Mestre Samuel de Souza (Samuel Querido de Deus), que escutei quando era menino e não entendi nada, mas isto ficou na minha memória durante todos estes anos: “Lá vem este Bimba com esta Capoeira Carioca”.
Waldeloir Rego nos informa, em sua obra, Capoeira Angola, nas páginas 266 e 267, que tanto Edison Carneiro quanto Jorge Amado, consideravam Samuel Querido de Deus como o maior capoeirista da Bahia, alvo constante dos cinematografistas brasileiros e estrangeiros, razão pela qual Bimba vivia a desafiá-lo, em busca de uma supremacia, situação esta que é retratada no Diário da Bahia.
O conceito de Arte Marcial advém de uma luta passar por uma experiência de guerra. Neste caso é legitimo afirmar que a Capoeira é uma Arte Marcial, em virtude de seu emprego na Guerra do Paraguai.
Fonte:
Da Capoeira: Como Patrimônio Cultural - Prof. Dr. Sergio Luiz de Souza Vieira - PUC/SP 2004
Por estas entre outras razões, a memória de Annibal Burlamaqui, o Zuma, é aqui resguardada, assim como, por méritos pessoais, é considerado o Patrono da Capoeira Desportiva.



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